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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro
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Caixa Preta
"O Terminal": crítica coberta de açúcar

O Terminal (The Terminal/04) Direção: Steven Spielberg Com: Tom Hanks (Viktor Navorski), Catherine Zeta-Jones (Amelia Warren), Stanley Tucci (Frank Dixon), etc
Steven Spielberg tem filmes estrelados por estranhos personagens: um tubarão, um extraterrestre, um caminhão misterioso e um menino-robô. Desta vez, o protagonista é o terminal de passageiros do aeroporto JFK, em Nova York. Spielberg reproduz ali um microcosmo da sociedade norteamericana com muitos de seus paradoxos, especialmente relevantes após o 11 de Setembro.
A história gira em torno do passageiro Viktor Navorski, que tem a entrada negada nos EUA e passa a morar dentro do aeroporto até que sua situação se regularize. Viktor é cidadão da (imaginária) Krakhozia, país que entrou em guerra após sua saída, o que, tecnicamente, o torna um viajante sem pátria (não tem autorização para entrar em Nova York e também não pode voltar para casa).
Navorski começa o filme sem entender uma vírgula de inglês e responde a tudo com um peculiar "yes, yes". Depois de "Matadores de Velhinhas", Hanks volta a investir em seu talento cômico, algo que fora deixado de lado na última década e meia em que se dedicou a papéis sérios. Mas Viktor, curiosamente, guarda mais semelhanças com seu personagem em "O Náufrago": ambos ficam presos em lugares que não conhecem e têm que inventar maneiras mirabolantes de se alimentar e cuidar da higiene pessoal. Assim, Hanks segura a primeira meia hora de filme praticamente sozinho.
Spielberg introduz então novos personagens na trama -- perfeita noção de timing -- e a vida de Navorski no aeroporto vai se moldando por esse contato social. É aí que o filme, supostamente, tenta mandar o seu recado. O protagonista é alguém de um país que poucos americanos conhecem e sua situação beira o surrealismo. Mesmo assim, ninguém parece interessado em ouvir e resolver seus problemas. Os eventuais parceiros são um indiano, um afro-americano e um latino, todos trabalhadores braçais. Ou seja, nenhum cidadão anglo-saxônico dá bola para o drama de Navorski e só mesmo os imigrantes ou os menos favorecidos parecem capazes de entender (e superar) as diferenças. Frank Dixon, chefe da imigração, é o vilão "spielbergiano" da vez: levemente bobo e malvado. Talvez seja com ele que o espectador americano -- levemente bobo e alienado -- acabe se identificando.
A história tem tudo para render e funciona bem como a comédia que se pretende durante a primeira metade do filme. Spielberg demonstra a habitual versatilidade técnica, fazendo câmeras tirarem rasantes de todos os níveis do terminal e, de quebra, brinca com o poder da imagem (Dixon e seus subordinados assistem às lambanças de Viktor pelos monitores de circuito fechado de uma forma que lembra "O Show de Truman"). Mas as trapalhadas de Navorski deixam de ser engraçadas e a essas alturas ele já fala inglês suficiente para engatar diálogos razoavelmente complexos.
Com a premissa absurda do filme, muitas situações irreais vão se amarrando sem precisar de grandes justificativas. Assim, Viktor, sem lenço e sem documento, arruma emprego na reforma do aeroporto, ensaia romance com uma bela aeromoça (Catherine Zeta-Jones) e vira herói entre os funcionários e comerciantes do terminal. Tem muito de Spielberg e sua famosa fábrica de sonhos na maneira como as coisas são tratadas nessa parte do filme. Algumas críticas quanto ao jeito sistemático do americano padrão e seu apego a regulamentos surgem, vez ou outra, para nos lembrar que "O Terminal" tem propósitos maiores que os de um filminho de matinee. O problema é que até a crítica social de Spielberg vem coberta com sua já conhecida camada de açúcar. Nesse aspecto, a fórmula do diretor se mostra um tanto cansada (o chafariz construído por Viktor para impressionar a aeromoça é de doer).
Talvez "O Terminal" seja aquele tipo de filme que necessita de algum tempo para fermentar, já que, depois de apenas uma sessão, não consegue insinuar-se como algo além de uma comédia razoável, com a boa intenção de apresentar a barreira sócio-cultural que separa o americano comum do estrangeiro "exótico". No fim, Spielberg parece tentado a nos dizer que, apesar de todas as incongruências, a América justifica que briguemos tanto por um mero visto de entrada. A imagem derradeira, que apresenta Times Square em toda o seu esplendor, explica isso melhor que qualquer diálogo.

Escrito por Mr Eddy às 02h34
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